sexta-feira, 6 de maio de 2011

Vistas e sensações, cores e divagações *



Este é um dos capítulos da vida de Joanna, uma garota que descobriu cedo demais a dor de uma desilusão amorosa. “Por que ele fez isso comigo?”, pensou, enquanto se dirigia a sua poltrona na janela. 
[...]
Pelo menos ela estava ali, tendo algum tempo para refletir, atravessar nuvens e percorrer longos caminhos longe da estabilidade da terra. Joanna queria tocar aquelas nuvens, ver se eram feitas de algodão.
Ela esperou o voo estabilizar para, enfim, inclinar sua poltrona, colocar fones de ouvido e relaxar de verdade. Isso daria a ela a tranquilidade necessária para refletir sobre o que tinha acontecido. O telefone tocou e ela tomou um susto ao ouvi-lo, pois pensou que tivesse desligado. Uma aeromoça apareceu, sorrindo.
- Com licença, você precisa desligar seu aparelho. 
A garota assentiu e o desligou.
[...]
Desde muito cedo, Joanna aprendeu que deve fazer o que acha certo. O mais certo para ela, naquele momento, parecia ser viajar para a Europa e esquecer que, nos Estados Unidos, certa pessoa tinha feito parte de sua história durante um bom tempo. “O Daniel é passado, eu preciso seguir em frente”, pensou, esboçando um ar de superioridade. “Se ele consegue, eu também conseguirei”.
Olhou para o lado e ficou maravilhada. Percebeu como seus problemas eram insignificantes perto da imensidão do que estava vendo. Ela e Daniel eram pequenos demais perto daquilo. Tudo, daquele ângulo, lhe parecia muito pequeno e insignificante. Sentiu-se diante de uma maquete ou até mesmo de simples brinquedos de crianças, mas sem poder ter controle algum sobre o que via.
Era uma união de azuis tão fascinante, eles se confundiam e não a deixavam distinguir uma coisa de outra. “Isso faz parte lá de cima ou lá de baixo?” A natureza brinca com as cores. E, assim, tão compenetrada na vista, ela pôde parar de pensar no ex-namorado durante algum tempo. Umas boas horas, pelo menos. Ao perceber isso, sorriu e sentiu-se vitoriosa. Era uma grande conquista para ela.
[...]
Joanna tinha uma prova muito difícil na próxima semana, seus pais estavam prestes a se divorciar e o garoto com o qual ela mais tinha se sentido segura durante sua vida, o único que a tinha feito descobrir tantos sentimentos novos, havia pisado na bola de maneira quase impossível de perdoar. Mas, naquele momento, nada mais importava. Nada mais merecia a sua atenção a não ser o que estava ali, do outro lado da janela.



* Segunda versão de texto ficcional a partir de foto, feito por mim, para a disciplina Português Aplicado à Comunicação II do curso de Jornalismo - Comunicação Social, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).